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  • Foto do escritorNathália Correia

O crime, a denúncia e o humor desconcertante em “Segredos de Um Escândalo”

Colecionando diversas indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro e vencendo um Emmy, Todd Haynes retorna ao protagonismo com seu novo longa: “May December” (em português “Segredos de Um Escândalo”). À convite da Diamond Filmes, assistimos à produção que estreia no Brasil no dia 18 de janeiro e vamos contar o que achamos desse lançamento que está conquistando o público. Ah, cuidado, o texto contém spoilers! 


O crime

Em “Segredos de Um Escândalo”, a vida do casal Gracie e Joe se transforma quando Elizabeth, uma atriz que irá interpretar Gracie em um filme sobre o seu polêmico passado, começa a conviver com o casal para conhecê-la melhor e destacar a sua encenação. Aos poucos, Elizabeth revira o passado conturbado dos dois, perturbando a vida tranquila e ingênua dessa família.


“May December” baseia-se no crime real de abuso infantil que aconteceu entre Mary Kay Letourneau e Vili Fualaau.


Mary, de 34 anos, ocupou todas as manchetes ao ser pega com o seu aluno Vili, de 12 anos. Os dois se conheciam desde 1991, quando o menino entrou na escola em que Mary lecionava e, em 1996, a relação entre eles ganhou novos contornos.



O casal foi descoberto pela polícia duas vezes, resultando na prisão de Mary em ambos os casos. Na primeira, ela foi acusada de estupro de vulnerável e sentenciada a seis meses de prisão, enquanto na segunda a pena foi de sete anos. 


A situação ficou ainda mais delicada quando, durante as duas prisões, Mary descobriu que estava grávida de Fualaau. Ao fim da última sentença eles se casaram e viveram juntos por 12 anos, até Vili pedir o divórcio.


A denúncia

Ao contrário do que foi feito pela mídia em 96, o roteiro não foca no escândalo em si e sim em seus desdobramentos. Se para você essa parece uma simples escolha de abordagem, venho te dizer que há muito mais por trás dessa jogada! 


O abuso infantil e a pedofilia são temas que precisam ganhar mais visibilidade e espaço de debate. Uma vez que o filme escolhe retratar o momento depois dos acontecimentos, focando nas consequências do crime, torna-se mais fácil e eficaz de escancarar as marcas do abuso. 



Joe consegue enganar o espectador por um curto período de tempo, mas logo se revela o menino de 12 anos por baixo do corpo, das responsabilidades e da vida adulta que tenta bancar. À medida que Elizabeth o provoca, ele se dá conta do amadurecimento precoce que foi obrigado a encarar. O pai de família na verdade ainda é uma criança, que deseja assistir tv, fumar pela primeira vez, conhecer o mundo e ter outras experiências amorosas. Tendo em vista a diferença com que a sociedade lida e entende adultos e crianças, essa escolha narrativa faz toda a diferença para a absorção da mensagem. 


O humor desconcertante



Sem dúvidas o grande acerto é a eficiência em provocar desconforto a todo o momento. Recheado de exagero e um drama que transita por diferentes gêneros - comédia, suspense, romance - o filme sustenta até o final algo revelado desde a abertura: o incômodo. As duas atrizes, que desempenham os seus papéis perfeitamente, fazem o desconforto ser o grande acerto aqui! Portman e Moore dão um show de atuação, deixando quase palpável a tensão entre as personagens nas cenas em conjunto.  

A música, com tons agudos e composta apenas por instrumentos, reforça o suspense e marca momentos chaves do filme, dando a sensação de que algo irá acontecer a todo momento. 


Mas o tempero que faz o longa se destacar ainda mais é o humor! Estrategicamente utilizado, diante de tantos acontecimentos inacreditáveis, o humor arranca risadas que, mesmo inapropriadas, são inevitáveis. Através da sátira e da ironia, o humor choca ao destacar a gravidade do que está sendo mostrado. 


Dos tabloides para as telas do cinema, “Segredos de Um Escândalo” é um grito silencioso que clama a conscientização sobre o abuso infantil. Será que fazemos um bom trabalho de denúncia social enquanto sociedade? A moralidade é mesmo tão questionável? Somos tão diferentes de quem julgamos? Talvez você descubra a resposta ao final dos 113 minutos de filme.



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