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Só por Uma Noite tem premissa interessante, mas comportada até demais

  • Foto do escritor: Marcos Silva
    Marcos Silva
  • há 3 minutos
  • 4 min de leitura

Diante de uma noite vivida, digamos, à flor da pele, é possível encontrar o amor? Assistimos com exclusividade a Só Por Uma Noite, novo longa do diretor Will Gluck, de A Mentira e Amizade Colorida. O filme estreia nos cinemas brasileiros no dia 27 de agosto de 2026. Vem conferir as nossas impressões.


Só por Uma Noite tem premissa interessante, mas comportada até demais

Aproveite enquanto pode

Em uma Nova York distopica, um decreto governamental estabelece que relações sexuais fora do casamento são proibidas, com exceção de uma única noite no ano. Owen, dono de uma pizzaria que acabou de ser abandonado por sua namorada, se esbarra em Allie, uma cantora, justamente nesse intervalo de liberdade. A garota, que busca se divertir nesta noite, busca para si um parceiro que tenha algo a mais para oferecer do que somente uma noite ardente.


Enquanto a cidade se transforma em um palco de paixões reprimidas, os dois se envolvem em uma série de encontros e desencontros que vão revelando uma conexão que pode ir além do desejo de liberdade fruto desse tal decreto. Mas será que esse fogo permanece vivo até o amanhecer do dia?

Falta molho nessa pizza

Em termos de elenco, temos uma dupla interessante à primeira vista. Monica Barbaro parece estar pouco confiante no papel, mas faz o que pode com a sua personagem. A diva, indicada ao Oscar por Um Completo Desconhecido, até convence, mas o roteiro não dá tanto pra ela conseguir trabalhar.


Só por Uma Noite tem premissa interessante, mas comportada até demais

Já o Callum Turner tem beleza e uma estatura de um freezer de duas portas, isso é inegável. Mas o que o Duo Lipo tem de beleza, não compensa na sua atuação. A sua capacidade de reagir e transmitir alguma coisa durante as cenas é fria, assim como um freezer de duas portas! A química entre os dois juntos é até fofinha, mas isso se dá mais pela beleza de ambos do que necessariamente pela construção da relação em si.


Entre o elenco de apoio, Charlie Gillespie ganha alguns bons momentos como um músico charmoso e dono de um ego super inflado. Mas a participação mais divertida fica por conta de Nicholas Braun, de Succession, que parece ter simplesmente saído de lá para interpretar uma versão ainda mais perdida do primo Greg.

Chapa Branca

Antes mesmo de começar, o filme já pede uma boa dose de suspensão de descrença do espectador. Em dias como esses, se um decreto parecido com esse fosse instaurado, as ruas da cidade iriam parecer algo como um cenário de guerra ou talvez a Gilead de The Handmaid 's Tale. Tá, para não exagerar tanto: no mínimo, Nova York estaria um pouquinho diferente do habitual.


Só por Uma Noite tem premissa interessante, mas comportada até demais

Podemos até aceitar que esse é um universo paralelo e simplesmente esquecer algumas regras, afinal, estamos diante de uma comédia romântica. Mas, se a premissa existe, por que não explorá-la um pouco mais? Trazer essa única condição sobre sexo casual fora do casamento para o jogo teria consequências sociais e políticas enormes, que não conversam em momento algum com o cenário limpo e colorido pintado pelo filme.

Um decreto desse tipo seria visto como autoritário e poderia desencadear protestos, polarização política, manipulação ideológica, ansiedade e frustração entre a população, sem contar os possíveis impactos na saúde mental causados pela repressão sexual. Só para citar alguns. Mas aparentemente os casais dessa Nova York – os modelos esbeltos de comercial de perfume – não passaram por nenhuma destas situações. 

Só por Uma Noite tem premissa interessante, mas comportada até demais

E aí entra Will Gluck, que assume a direção e decide manter a estrutura de uma comédia romântica moderna intacta — irritantemente intacta. O resultado é um filme bastante genérico e sem grandes surpresas. O roteiro tenta emplacar piadas já batidas pelo gênero, deixando o ritmo liso. Parece que o tempo não passa e que tudo ali não passa de uma sequência de cenas forçadas e longas demais na tentativa de arrancar alguma graça.

Heteros oprimidos

O cinema parece estar passando por uma boa onda. Depois de uma indústria que passou por bocados durante a pandemia, este talvez se torne um dos anos mais lucrativos para Hollywood nos últimos tempos. E, olhando para o que tem funcionado, existe uma coisa em comum: o público parece disposto a investir novamente na experiência cinematográfica, seja pelo boca a boca, por boas histórias ou simplesmente pela vontade de assistir a algo que renda uma boa conversa depois da sessão.


É curioso, então, encontrar um filme como Só Por Uma Noite. A premissa já nasce provocativa. Só que, segundo o próprio diretor, a nudez foi podada depois das exibições de teste para não comprometer a experiência do público. Talvez podar justamente aquilo que poderia provocar alguma reação seja o movimento mais autoritário de todo o filme. E isso fica ainda mais curioso quando lembramos que o filme teve uma abertura abaixo do esperado nos Estados Unidos. 


Só por Uma Noite tem premissa interessante, mas comportada até demais

Só Por Uma Noite, em suma, usa da sátira para suavizar uma premissa que, na prática, seria extremamente opressiva e geraria resistência social massiva. O filme não aprofunda essas implicações, mas elas poderiam render uma narrativa muito mais sombria e politicamente carregada. E que, sim, poderia caber perfeitamente dentro de uma comédia romântica, Talvez se houvesse mais boa vontade. Não tinha, sejamos sinceros. 


©2019 por pippoca.

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