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Retiro, fé e uma Virgínia: o caminho para o caos e a potência de “Virtuosas”

Foto do escritor: Nathália Correia
Nathália Correia
há 6 minutos
3 min de leitura

Setembro está quase acabando, mas sempre tem espaço para mais um lançamento, ainda mais brasileiro. A Olhar Filmes nos convidou para assistir “Virtuosas”, primeiro longa de Cíntia Domit que estreia no dia 24/09 e já está dividindo opiniões entre o público. Vem descobrir o que nós achamos e se vale a pena conferir esse lançamento!


Retiro, fé e uma Virgínia: o caminho para o caos e a potência de “Virtuosas”

O frescor de “Virtuosas”

Três mulheres são selecionadas para participarem de um retiro espiritual com o objetivo de alcançarem sua melhor versão, fortalecerem a fé e desenvolverem a feminilidade. Lideradas por Virgínia Heinzel, coach cristã, a jornada virtuosa se torna uma busca pela sobrevivência. 


Não é de hoje que o cinema independente brasileiro reserva grandes surpresas e agrega à filmografia nacional obras ricas, inovadoras e com o frescor que só olhares diversos podem proporcionar. “Virtuosas”, arrisco dizer, já pode entrar nessa lista de sucesso. 

O filme, primeiro longa de Cíntia Domit Bittar, venceu o prêmio Goes to Cannes no Marché du Film, durante a 78ª edição do Festival de Cannes, e tem dividido opiniões entre a comunidade conservadora cristã e “progressista”/feminista. Dando luz a um tema ainda pouco explorado no cinema brasileiro, as tradwives (esposas tradicionais), a produção questiona o retorno de discursos e ideais que colocam a mulher em posições de subordinação em nome da fé e dos “bons costumes”.


Com uma narrativa envolvente, “Virtuosas” constrói um encadeamento de ideias de forma que os minutos passam sem percebermos. Além de um enredo bem amarrado, que caminha de forma natural e lógica, Cíntia apostou em uma mistura arriscada de suspense, drama e humor (ácido) que funcionou super bem para a história

A transição entre gêneros destaca os absurdos aos quais somos expostos a medida em que o filme acontece e demarca a mudança de tom em cada ato: começamos com um retiro aparentemente tranquilo e conservador, caminhamos para o início de um desequilíbrio perigoso e terminamos com uma sequência brusca, impactante e, para alguns, inesperada. É importante destacar o cuidado, também, com trilha sonora, figurino e cenografia, recursos que fazem toda diferença e estão mergulhados em significados e simbologias neste filme.


Retiro, fé e uma Virgínia: o caminho para o caos e a potência de “Virtuosas”

O caminho para a virtude?

Se, por um lado, muitos criticam o filme por considerá-lo um ataque à religião e às mulheres que se identificam com valores tradicionais e patriarcais, outros indicam que “Virtuosas” é mais do mesmo e está longe de ocupar a vanguarda. Enquanto um longa que questiona e reflete sobre os extremos, talvez o sucesso do filme se dê não pelo enredo inédito, cujo tema já é conhecido, mas sim pela forma como o faz. Cíntia problematiza de dentro para fora. 


Ao contrário do que estamos acostumados, não é um agente externo, como uma feminista, que questiona e desestrutura a segurança da comunidade cristã e sim elas mesmas, defensoras da virtude e feminilidade. São os valores defendidos por elas que trazem a ruína e esse é o diferencial, mostrar as falhas, as contradições e a violência que surge e vive dentro do movimento. A partir disso, fica evidente como coachs e líderes utilizam dessas lacunas para deturpar a fé e os valores em prol de benefício próprio.

Como o próprio elenco explica, o intuito do filme não é criticar a religião e a fé e sim o modo como esses dois pontos são apropriados e ressignificados para conduzir e articular pessoas. Sem ridicularizar, vemos a naturalização de discursos e comportamentos que se tornam nocivos não só para as mulheres, mas para a família e a sociedade.


Dando voz a um debate tão importante, somos provocados a pensar sobre o que nós, mulheres, defendemos para nós mesmas. Se a virtude é a busca constante para trilhar um caminho do bem e atingir a excelência humana, então talvez o que essas mulheres (e todos nós) precisem seja recalcular a rota. Sem dúvidas, um lançamento que vale a pena conferir! 


©2019 por pippoca.

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