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Pluribus é o apocalipse provocativo imperdível de Vince Gilligan

  • Foto do escritor: Marcos Silva
    Marcos Silva
  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

Não tem como passar batido uma nova produção do criador de Breaking Bad. A surpresa aqui é que Pluribus, com pouco tempo, já se tornou a série mais assistida da AppleTV+. A primeira temporada encerrou recentemente, então juntamos aqui algumas reflexões sobre a série.


De muitos, um

Pluribus é o apocalipse provocativo imperdível de Vince Gilligan

O que faz Pluribus ser especial é primeiramente a sua premissa disruptiva. Um tipo de “vírus” capaz de contagiar toda a humanidade e “condenar” todos a alcançar a felicidade extrema é um tipo de ameaça contraditória, se pensarmos na maioria das produções com a mesma temática. Colocar o público junto de uma protagonista que expressa o contrário dessa felicidade toda, faz dessa série um produto com mais profundidade ainda.

Sem querer me repetir, mas já repetindo: a capacidade de atuação de Rhea Seehorn é de outro mundo. Carol Sturka é uma mulher aprofundada no seu próprio luto enquanto tenta reverter o que aconteceu com o mundo. É uma heroína falha e digna de ser vista. A Rhea consegue aprofundar essa personagem em toda a sua amargura, de forma que o seu tormento encontra um sarcasmo tenebroso em cena. A Karolina Wydra que interpreta a versão integrada de Zosia consegue nos comover e nos afeiçoar só com o seu olhar, mesmo sabendo que a personagem não é mais humana como antes.

Pluribus é o apocalipse provocativo imperdível de Vince Gilligan

O ritmo deliberado da série também é algo a se colocar em destaque. As revelações da série nunca se apressam. Elas são baseadas no comportamento do ambiente e dos personagens, e muito menos nos diálogos. É preciso estar atento para não perder nada. Recentemente foi percebido que a qualidade de diálogos e de roteiro nas produções mais recentes decaiu propositalmente. Os estúdios almejam mais um roteiro expositivo e simples, a fim de tentar recuperar um público que prende a atenção cada vez mais para o celular. Manter o espectador imerso na história está ficando difícil. 

Com isso em mente, é bom ainda termos séries como Pluribus que escolhe o contrário: convidar o expectador a consumir sua obra em plena e total atenção. Esta talvez seja a maior contribuição da série para com a humanidade. Arte pura, sem distrações.

Esta série foi feita por humanos

Pluribus consegue caminhar com o público para diversas interpretações. Quando começo a pensar sobre a temática apresentada, logo me vêm alguns dos conhecimentos filosóficos e espirituais mais antigos do mundo. Algo sobre esse estado de iluminação, na série, só poder ser alcançado de forma forçada me intriga…

Pluribus é o apocalipse provocativo imperdível de Vince Gilligan

O mestre iogue indiano Paramahansa Yogananda afirmava que o senso de unidade com a humanidade nasce do reconhecimento de que todos são partículas vindas de Deus. Já a filosofia Advaita Vedanta ensina que a separação entre indivíduos é uma ilusão, e que, em essência, todos somos um. A ideia de dissolver o ego atravessa grande parte das religiões e filosofias ao redor do mundo. Penso que Vince cria, em Pluribus, uma provocação instigante para todos esses conceitos.  


Ao colocar toda a humanidade trabalhando para um único bem, algo se perde no processo: a individualidade, a divergência de opiniões, as formas singulares de expressão — e até a arte, que tantas vezes nasce do contraste, da dor ou do conflito. A ideia de uma alma compartilhada cria uma ruptura justamente naquilo que torna cada ser humano irrepetível. Pluribus não rejeita a unidade; ela questiona o preço de torná-la obrigatória.

Pluribus é o apocalipse provocativo imperdível de Vince Gilligan

Como seres humanos, somos feitos de desejos, metas e impulsos contraditórios. Em muitos momentos, tudo o que queremos é acordar em um mundo de plena paz, onde nada falte e tudo funcione. Mas a série nos provoca uma pergunta incômoda: seríamos capazes de habitar uma realidade assim? Uma realidade tão estável, tão harmoniosa, tão livre de atritos? Onde foi parar meu vizinho que toca música alta todo domingo?


E talvez seja justamente aí que mora o desconforto. Ao transformar a unidade em estado permanente, a série parece questionar se a harmonia absoluta não exige o sacrifício daquilo que nos torna únicos: nossas contradições, nossos excessos, nossas falhas — e, principalmente, nossa capacidade de sentir profundamente.

Você está feliz, Carol?

A nova série de Vince Gilligan foi fruto de quase uma década de pensamentos e trabalho para que seja colocada em tela. A junção de uma fotografia impecável, uma produção intelectual cheia de momentos icônicos e que, com sua temática, é capaz de praticamente atacar cada indivíduo que a assiste com uma teia de pensamentos sobre a vida, o coletivo e os interesses individuais. 

Pluribus é o apocalipse provocativo imperdível de Vince Gilligan

É gratificante assistir uma série com uma ideia tão original, provocativa e subversiva em tela. Novas temporadas virão! E que arremessam bastante Emmys na estante de Vince Gilligan!


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