O Beijo da Mulher Aranha é uma adaptação que se perde na própria teia
- Marcos Silva

- há 7 minutos
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Assistimos ao drama musical O Beijo da Mulher Aranha, remake do consagrado filme américo-brasileiro de 1985, que chega aos cinemas brasileiros no dia 15 de janeiro de 2026. Será que o novo filme faz jus ao clássico? Fica aí que eu te conto.

A História
Maio de 1983, a Argentina enfrenta uma tenebrosa ditadura militar. Valentin é um homem fechado e preso político que acaba por dividir a cela com Molina, que recentemente foi detido por atentado ao pudor. Enquanto Valentin é um idealista recluso e resistente, Molina vive da sua vida uma fantasia e não para de falar um segundo. Para passar o tempo, Molina começa a narrar histórias de um extravagante musical de Hollywood, estrelado pela sua atriz favorita Ingrid Luna.
A narrativa cheia de cores, assim como o companheiro de cela, começa a chamar a atenção de Valentin, que começa a dissolver o seu temperamento rígido com o colega. Conforme o tempo vai passando a relação da dupla vai se estreitando, assim como os ideais de imaginação e resistência vão se tornando um só. E logo aos poucos, uma história mais profunda e fantástica vai se desenrolando naquela cela.

Centenas de filmes em um só
As principais engrenagens que fazem esse remake funcionar se sustentam acima de tudo, nos personagens centrais. Diego Luna imprime a Valentin uma profundidade rara, trazendo contexto, dor e tormento sem jamais perder a sinceridade e entrega nos diálogos. Seu desempenho constroi um personagem contido, marcado pelo silêncio e pela resistência, mas sempre pulsante por dentro.
A grande revelação, no entanto, é Tonatiuh. Após passagens por séries e curtas, o ator encontra aqui seu papel mais expressivo no cinema e agarra com força o personagem. Molina, por vezes é irritante, deveras sonhador, mas também é alguém que carrega medos profundos e enxerga o mundo por um prisma próprio. Vivaz e contraditório, Molina ganha vida através de uma performance cheia de nuances, que transita com naturalidade entre o humor, a fragilidade e o drama.

Confinados na cela, os dias constroem lentamente uma relação onde ideias, afetos e visões de mundo passam a se confrontar e se misturar. O filme acerta ao permitir que essa aproximação aconteça sem pressa, deixando as camadas dos personagens se revelarem aos poucos. A química entre os atores é evidente e resulta numa relação sincera, delicada e profundamente humana — duas pessoas opostas, presas à mesma realidade. É singelo, bonito e fácil de se envolver.
Já Jennifer Lopez faz o papel da Ingrid Luna, a atriz do filme favorito de Molina e a musa que povoa seu imaginário. Como dançarina e performer, JLo é inegavelmente talentosa. No entanto, quando o assunto é atuação, o resultado deixa muito a desejar. Suas personagens – Ingrid, Aurora e A Mulher Aranha – carecem de diferenciação e acabam se resumindo a poses, gestos e falas muito semelhantes entre si. A performance segue uma linha excessivamente segura, o que faz com que suas sequências sejam menos memoráveis do que poderiam ser.
Musical latino nos Estados Unidos?
Conhece o termo trauma cinematográfico? Pois bem. Em um certo momento, ali pela metade do filme, enquanto eu assistia a um dos números musicais, duas palavrinhas ecoaram na minha cabeça e me deram um arrepio imediato na nuca: Emília. Perez.

Calma! É desproporcional comparar O Beijo da Mulher Aranha com aquele desastre ambiental. Mas foi impossível não sentir o mesmo incômodo. Não pelo musical em si — e sim pela ideia que o filme constroi de cultura latina. Esse olhar enviesado, tipicamente norte-americano é o que realmente acionou o gatilho. O cenário é Technicolor, vibrante, teatral. Mas tudo é representado com um olhar um pouco mais “exótico”, um pouco mais caricato do que deveria.
Com isso fica inevitável resgatarmos o clássico para fins de comparação. Enquanto no filme de 1985 Hector Babenco opta por uma separação visual clara entre o imaginário do filme narrado de Molina e a dura realidade dos protagonistas presos na cela, o remake de Bill Condon escolhe um caminho diferente: afunilar progressivamente as duas narrativas, culminando no encontro entre o escapismo de Molina e o espaço físico que o aprisiona. É uma decisão conceitualmente interessante e cheia de potencial.

O problema é que, ao longo do filme, essa escolha cobra um preço alto da parte musical, que sofre com a evidente falta de recursos sensoriais para se sustentar até o fim. Os cenários são pouco inspirados, os movimentos de câmera e as coreografias parecem engessados, os figurinos raramente brilham e, somado a isso, a capacidade dramática de Jennifer Lopez se mostra bastante limitada. Com esse caminho tortuoso, sobra para Tonatiuh a missão de erguer o espetáculo nas costas — um talento evidente que faz o que pode, mas que também deixa claro o quão árdua foi essa caminhada.
Que tipo de filme é esse?
Durante suas duas horas de duração, o filme abre brechas para pensamentos intrusivos. Um deles me dizia sobre o estrago que alguém com mais imaginação, como Damien Chazelle, por exemplo, não seria capaz de causar em um filme musical com essa premissa. Outro insistia em como Kate Hudson (veja, atriz norte-americana) ou Claudia Raia traria camadas muito mais interessantes à Mulher Aranha, sem abrir mão da presença cênica e da entrega performática que o papel exige.

Mas o pensamento mais cruel — e também o mais revelador — veio no fim: sair de um musical sem conseguir lembrar sequer de uma música é um pecado mortal para o gênero. E desse, infelizmente, não há número final que absolva.






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