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  • Foto do escritorFabrizzio Laroca

A Musa de Bonnard: apenas mais um sinal do machismo

Atualizado: 7 de jun.

Recebemos o convite da California Filmes para assistir A Musa de Bonnard, o filme francês que teve sua participação recente no festival de Cannes. O longa foi dirigido por Martin Provost, diretor que já aparenta ser um grande entusiasta de filmes biográficos, tendo participado de Séraphine (2008) e Violette (2013).Antes de falar sobre o filme, preciso falar sobre o título original em si: Bonnard, Pierre et Marthe.


O filme se apresenta desde a primeira cena como um filme que fala sobre a vida do casal, não somente de Pierre (Vincent Macaigne) e de sua musa inspiradora. O pintor se mostra manipulador, histérico e completamente dependente de Marthe (Cécile de France), ao mesmo tempo que não consegue controlar seus desejos lascivos e seus comportamentos.


Enfim, quer saber o que a gente achou? Confere aí!

A Musa de Bonnard: apenas mais um sinal do machismo

O enredo

A Musa de Bonnard é um filme biográfico que conta a história de Pierre e Marthe Bonnard, um casal de pintores e conta toda a história desde que se conheceram até o momento de suas mortes. Pierre conhece Marthe e pergunta se ela gostaria de posar para uma de suas pinturas, e desde o primeiro momento, os dois já passaram a se envolver profundamente. Desde muito cedo, os dois foram morar juntos em uma casa de campo às margens do Rio Siena, casa que foi cenário de inúmeras das obras do artista durante sua vida.

Pierre Bonnard, que nessa época já estava começando a ficar famoso, era um dos membros dos Les Nabis, um grupo seleto de pintores pós-impressionistas que estavam se destacando na França. E desde então, passou a pintar inúmeros quadros, onde em muitos deles, Marthe estava presente. Ficando famosa por ser sua musa inspiradora.A união dos dois era algo muito instável e intenso desde o princípio. Pierre era um mulherengo e não via problema em trair Marthe. Enquanto Marthe com toda a razão, vivia perturbada pela situação com Pierre,

e se mostrava empoderada e fortemente relutante com sua situação atual.


Sobre o elenco e sua paixão na entrega

A Musa de Bonnard: apenas mais um sinal do machismo

Um dos grandes destaques desse filme é a atuação e a entrega de Cécile de France no papel de Marthe. O filme que claramente deveria ser sobre a relação do casal, torna-se um filme sobre Marthe, a partir de seus problemas, seus pensamentos, suas lutas e angústias enquanto mulher de um pintor renomado e seus conflitos conjugais.


Cécile entrega uma Marthe densa, profunda, repleta de lutas internas e externas na sociedade em que vivia. Vincent Macaigne é ofuscado, não só por seu par, mas também pelo roteiro, que traz um personagem sem evolução considerável e com o carisma de uma porta comum de uma casa de beco, fato que até me fez pensar se o artista tinha um carisma tão anti climático assim, considerando o quão mulherengo ele aparentava ser.



Stacy Martin, que interpreta Renée, protagonista dentro da vida do casal, é excelente pro papel, mas novamente, a montagem desfavorece todo o impacto de sua participação importantíssima, presente na vida dos dois artistas.Devo também deixar minha menção honrosa para Anouk Grinberg, que interpreta Misia, a patrona de Pierre e também para André Marcon, que dá a vida a Claude Monet, o grande nome entre os pintores impressionistas e chamado de mestre por Pierre e Marthe. Ambos atuaram bem dentro dos seus papéis e acrescentaram um pouco de tempero em um roteiro sem sabor.


O labirinto da montagem

A Musa de Bonnard: apenas mais um sinal do machismo

Neste filme, a montagem consegue transformar algo que deveria ser simples e linear, em algo completamente desconexo, confuso e sem rumo, como se a montagem em si não fizesse ideia do resultado daquela história (preciso lembrar, que essa é uma obra biográfica?).


Na ideia de transformar a vida comum de um artista em algo atraente nas grandes telas, o filme tenta encaixar cortes desconexos, dezenas de cenas descartáveis, para contar uma história monótona com um meio trágico e um fim revoltante.



Bom, a montagem tem como papel principal contar uma história e falha miseravelmente em sua entrega desde o princípio. Com uma narrativa repleta de saltos temporais sem nexo, cenas que parecem não pertencer àquela linha temporal, conversas que começam sem um contexto mínimo, acontecimentos que surgem sem explicação e deixam todo o ato seguinte à deriva, esse filme se torna uma bagunça sem fim.


E justamente por se tratar de um filme biográfico, o enredo entregue é algo simples e até mesmo muito repetitivo. Desde o começo do filme é possível perceber que Pierre é o clássico francês mulherengo descontrolado, que usa a paixão como uma ponte para realizar seus desejos. O ponto é que isso se repete tantas vezes na trama, que passa a ser enfadonho, chato, não acrescenta em nada na história que precisa ser contada.


Uma fotografia feita com carinho 

A Musa de Bonnard: apenas mais um sinal do machismo

É necessário falar sobre a fotografia, pois ela é um dos pontos altos da obra. O trabalho feito por Guillaume Schiffman conversa profundamente com as obras do autor, mostra carinho e compreensão de todo o trabalho de Bonnard, que era conhecido como um pintor da felicidade e por retratar muito bem trabalhos com a iluminação em suas obras.


Em um trabalho como esse, era necessário que a fotografia falasse por si só e ela entrega cenas belíssimas e complexas, que entregam tudo o que era necessário para uma fotografia bem apresentada. Bom, aí temos algo a compensar pelo roteiro confuso e uma pós produção desleixada, não é mesmo?



Saldo final

A Musa de Bonnard: apenas mais um sinal do machismo

O que resta ao fim desta obra é revolta. Com uma bela fotografia, um CGI medonho, atuações belíssimas, um roteiro enfadonho e uma montagem bagunçada, A Musa de Bonnard não passa de mais um filme em que o abuso de um homem vazio é romantizado no final, fechando sua trajetória com a promessa e a mensagem pífia de um amor eterno.



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