Xica da Silva tem retorno deslumbrante aos cinemas
- Marcos Silva

- 20 de jul.
- 2 min de leitura
Atualizado: 23 de jul.
Fomos convidados à pré-estreia do relançamento de Xica da Silva, filme de 1976 dirigido por Carlos Diegues. O filme original passou por uma remasterização e está em cartaz nos cinemas nacionais desde o dia 16 de julho de 2026.

É uma oportunidade única de revisitar uma obra que marcou o cinema brasileiro ao transformar uma figura histórica em uma alegoria que busca provocar uma reflexão sobre identidade, escravidão e poder no Brasil, de forma irreverente e critica ao mesmo tempo.
A sinhá dos diamantes
O enredo mistura elementos históricos com licença poética, criando uma narrativa que expõe as contradições da sociedade colonial. Durante o auge da exploração de diamantes em Minas Gerais, conhecemos Xica, uma escravizada que ascende socialmente ao se tornar companheira de João Fernandes, contratador de diamantes da Coroa Portuguesa.

Interpretada de forma única e brilhante por Zezé Motta, Xica é uma mulher que, mesmo em meio às estruturas opressivas da escravidão, consegue manipular e subverter o sistema que está inserida para conquistar poder e prestígio.
Agora com mais cores!
Durante a sessão, fomos recebidos com uma mensagem de Renata Almeida Magalhães, a viúva do diretor Carlos Diegues. Como ela bem lembrou, Carlos tinha interesse em retratar o Brasil para os brasileiros, misturando os relatos históricos em uma reflexão de comportamentos que ainda ecoam nos dias atuais. Em seus filmes, ele vem com uma visão questionadora, e deseja invocar no público o tipo mais curioso de reação possível.

Optando por uma estética marcada pela sátira, o diretor transforma a dor e a violência através do exagero, da festa e da exuberância visual. Essa escolha não chega a diminuir a gravidade da situação, mas a posiciona de forma simbólica, ridicularizando as elites coloniais e suas contradições.
A irreverência do filme se manifesta em cenas que misturam humor, sensualidade e espetáculo, criando uma atmosfera que desafia a seriedade tradicional dos fatos históricos. Essa estética carnavalesca permite que o filme dialogue com o público de forma acessível, sem perder sua densidade crítica.
Aquilo que só ela sabe fazer…
Não tem como falar de Xica da Silva sem falar de Zezé Motta. A atuação dela é a peça fundamental para transformar a imagem de Xica em um ícone. A atriz dá camadas complexas à personagem, e se despe totalmente para criar uma figura quase mitológica no imaginário coletivo. É radiante de se presenciar.

Outros destaques do elenco (formidável) é um registro de Elke Maravilha em uma performance efervescente, e o timing cômico de Altair Lima. José Wilker também se entrega no longa, interpretando um enviado da coroa portuguesa que, mesmo breve, sustenta o humor do filme com bastante primor.
E Viva, Xica!
É seguro afirmar com certeza que Xica da Silva é uma experiência energética. Capaz de ficar com o espectador para longe da sala de cinema. Um trabalho técnico primoroso em termos de fotografia, produção, figurino, e, claro, a trilha sonora inesquecível que ainda conta com a icônica música de Jorge Ben Jor.

O relançamento de Xica da Silva reafirma sua relevância e oferece ao espectador a chance de revisitar ou conhecer uma obra que, ao mesmo tempo, diverte e provoca. Um longa que decide transcender o relato histórico para expor de maneira mais absurda possível um contexto que, por si só, já era absurdo.


