Muito Prazer é comédia com propósito
- Fabrizzio Laroca

- há 11 minutos
- 2 min de leitura
Muito Prazer é o novo longa de Jorge Furtado — e eu não sabia o quanto estava com saudade de uma comédia simplesmente interessada em fazer o público rir. Conhecido por seu excelente trabalho como diretor e roteirista em Saneamento Básico e O Homem Que Copiava, Furtado chega com mais uma boa comédia em seu arsenal.

Mas por que comédia com propósito?
Porque, por trás do humor escrachado e das situações absurdas, Furtado constrói uma discussão bastante contemporânea sobre intimidade, consentimento e o valor da própria imagem.
E é no enredo que essa discussão ganha forma: Rubem (Daniel de Oliveira) é um jovem formado em administração que não conseguiu sucesso na carreira. Ele pensa ter encontrado uma nova chance quando descobre que herdou o caidíssimo motel Pérola de seu tio. Sem dinheiro e com aluguel atrasado, Rubem deposita suas últimas esperanças em fazer o novo empreendimento dar certo.
Lá ele conhece Grace (Luisa Arraes), a moradora e ex-funcionária do Pérola, que passou a viver de forma improvisada dentro do estabelecimento, fechado há meses. Os dois passam a tentar devolver o Pérola aos seus tempos de glória, até que, depois de um assalto, Rubem conhece Nalva (Samantha Jones), uma jovem especialista em tecnologia que acaba envolvida na tentativa de transformar o Pérola em algo rentável. Mas não da forma convencional: a ideia passa a envolver a gravação secreta dos hóspedes para comercializar conteúdo íntimo na internet.
O mais interessante é que o roteiro não abandona a comédia para discutir essas questões. Consentimento, exposição e a facilidade com que a imagem de alguém pode ser apropriada viram parte do absurdo da situação. Em tempos de deepfakes e conteúdos produzidos por inteligência artificial, a discussão ganha uma camada especialmente atual.

O elenco
Daniel de Oliveira tem uma boa química com Luisa Arraes, construindo a relação de Rubem e Grace aos poucos, cena a cena.
Há uma ironia interessante nessa relação: enquanto Rubem e Grace constroem entre si uma intimidade quase juvenil, em pequenos e tímidos passos, o negócio que tentam salvar passa justamente pela transformação da intimidade alheia em produto.
Preciso destacar aqui o auge desse filme: Samantha Jones. Samantha entende perfeitamente quando segurar uma reação, quando entregar uma fala e quando simplesmente deixar o absurdo da situação fazer o trabalho por ela.
A direção
A direção de Jorge Furtado entrega um timing cômico muito afiado. Mesmo trabalhando com poucas locações, a dinâmica é intensa, sempre te deixando curioso para descobrir qual vai ser a próxima sacada ou acontecimento em cena.
A direção de Furtado tem um grande fio condutor: a diversão. Todo o enredo, as atuações, a montagem e o roteiro parecem caminhar na mesma direção: fazer você rir ou, se me permite o trocadilho, sentir muito prazer em assistir.

Afinal, vale a pena assistir a Muito Prazer?
Muito Prazer não parece interessado em reinventar a comédia brasileira, mas lembra de algo que muitas produções esquecem: antes de qualquer discurso, uma comédia precisa ser engraçada.
Melhor ainda quando consegue colocar temas relevantes como consentimento, exposição e inteligência artificial no meio dessa bagunça sem transformar o humor em palestra.
Para quem estava com saudade de uma comédia nacional capaz de fazer uma sala inteira rir junto, Muito Prazer chega em ótima hora.


